sexta-feira, 27 de março de 2009

As rotas ópticas de telecomunicações e as construções de infra-estrutura para o País

De algum tempo venho acompanhando os projetos de infra-estrutura propostos para o país e lamento ao ver que tais propostas não aproveitam a sinergia entre eles, quando tais projetos são implantados, onerando significativamente o custo global.

Especificamente, os projetos de rodovias, ferrovias, rotas de telecomunicações, linhas de transmissão de energia elétrica, oleodutos e gasodutos em geral, carregam entre si sinergias tão grandes que precisavam ser pensados juntos, uns com outros. A construção de um deles envolve inexoravelmente negociações tão complexas, investimentos tão altos e esforços tão grandes de engenharia que a construção de outra infra-estrutura em conjunto (ou outras, em situações específicas) poderia ser realizada, na maioria das vezes, a custo marginal em relação ao seu custo da construção isolada.

Processos de desapropriação, obras básicas de engenharia, operações de logística, etc. podem ser realizados para mais de uma infra-estrutura com um custo significativamente menor que a soma dos custos individuais de cada uma delas.

Mas meu propósito aqui não é discutir generalizadamente a construção destas infra-estruturas em sinergia umas com as outras. Meu propósito é discutir as construções de rotas de fibras ópticas e seus custos, quando simultaneamente se constroem as outras infra-estruturas, em especial, rodovias, ferrovias e linhas de transmissão de energia elétrica.

Como exemplo, considere a necessidade de se construir uma rodovia e uma rota de fibras ópticas ao longo desta rodovia. Na construção da rodovia, simplificadamente, faz-se o serviço de movimentação de terra e terraplanagem e a seguir a pavimentação. Ocorre que, no final do processo de terraplanagem, a construção de uma vala para colocação de dutos de telecomunicações subterrâneos é extremamente facilitada e seus custos significativamente reduzidos em relação a uma mesma construção na rodovia, se depois que esta é entregue ao tráfego. Apesar disto, é comum ver construções de rotas ópticas de telecomunicações ao longo de rodovias com tráfego, às vezes imediatamente após a sua entrada em operação, porque tais construções não foram planejadas e realizadas simultaneamente à construção daquela rodovia.
Como agravante, as empresas operadoras de serviços de telecomunicações o fazem normalmente, independentemente umas das outras e, portanto, intervindo naquela rodovia, uma após outra, sem preocupação com o compartilhamento dos custos desta implantação e da infra-estrutura entre si, onerando seus custos individuais e gerando transtorno nas intervenções para as concessionárias e usuários finais.

A construção de uma rota de fibras ópticas ao longo daquela infra-estrutura já será aproveitada para monitorá-la, supervisioná-la e automatizá-la. Uma rodovia, por exemplo, precisa de infra-estrutura de telecomunicações para interligação dos “call boxes” e painéis informativos ao centro de operações, além de automatização do sistema de arrecadação do pedágio e da rodovia em geral. Esta automatização da rodovia conhecida como ITS, abreviatura do termo inglês “Intelligent Transportation Systems”, ou seja, Sistemas Inteligentes de Transporte, é grande utilizadora da tecnologia da informação e telecomunicações. O pior é que não é raro ver a própria rodovia construir infra-estrutura de telecomunicações para esta finalidade, após a construção da via.

Assim, existe uma oportunidade de negócio para as detentoras de infra-estruturas como rodovias, ferrovias, linhas de transmissão, etc. que é o de provedor de infra-estrutura para telecomunicações, em especial, o de provedor de rotas ópticas de telecomunicações, implantadas sobre a sua própria infra-estrutura. A oportunidade está em construir em sua faixa servidão ou inserida na sua própria infra-estrutura (como no caso de linhas de transmissão de energia elétrica, onde são lançados cabos ópticos dentro de cabos terra, sobre as torres de transmissão), rota de fibras ópticas de telecomunicações, a custos significativamente baixos, utilizar uma parte para si e comercializar a parte excedente, fracionadamente na forma de dutos e fibras ópticas apagadas ali passadas, para principalmente as empresas operadoras de telecomunicações e de TV por assinatura.

A oportunidade pode não demandar tanto investimento se a construtora da infra-estrutura “mãe” tomar como estratégia a atração dos potenciais clientes da infra-estrutura de telecomunicações na incorporação da obra, como em um lançamento imobiliário.

Curiosamente, hoje o mercado, para estes tipos de infra-estruturas – dutos e fibras ópticas apagadas (em inglês, “dark fibers”) voltou a se aquecer, principalmente por causa das operadoras de serviços móveis celulares. Estas, devido à implantação da tecnologia 3G, demandam banda para escoar seus tráfegos a partir das estações de rádio-base, significativamente aumentados em relação às tecnologias 2G e 2,5G, exatamente por oferecer aos seus usuários finais, velocidades de comunicação de dados da ordem de alguns megabits por segundo (contra kilobits por segundo da tecnologia anterior). Empresas como Vivo, Claro e TIM estão investindo pesadamente em infra-estruturas metropolitanas e de longa distância (“backbones”) próprios, para, em essência, escoarem seus tráfegos, a custos mais atraentes que aqueles se utilizando de capacidades alugadas de “carrier of carriers” (prestadoras de serviços que comercializam banda para outras prestadoras).

sexta-feira, 6 de março de 2009

Carta ao amigo Sílvio Meira

Como amigo de escola, preciso lhe dizer que gostei pela metade da sua entrevista na HSM Management, de janeiro-fevereiro/2009. A metade representada pela sua exaltação às inovações induzidas pelo próprio mercado - as de "market pull". Mas acho que você não deveria ter "jogado às traças" as inovações induzidas pela tecnologia - as de "technology push". Afinal, Richard Feynmann, seu/nosso ídolo é o "pai" da nanotecnologia.
Você exaltou também em demasia esse pessoal de venture capital, que muitas vezes se cega por pura arrogância. Quando algum pesquisador/empreendedor com um produto/prova de conceito com grande potencial de inovação recebe um "não" deste pessoal, faço as minhas palavras as de Nelson Rodrigues, "se um dia, a vida lhe der as costas ... passe a mão na bunda dela!"

Obviamente não há como discordar que anovação só se manifesta quando gera valor econômico, ou seja, no mercado. A visão shumpeteriana de invenção =/ (diferente) inovação é a síntese disto. Schumpeter diz que invenção só é inovação quando se manifesta no mercado, trazida pela empresa e não pela academia. Mas não nega suas origens, ou seja, parte delas podem ser induzidas por tecnologias. Nanotecnologia, por exemplo, está induzindo muitas inovações e em algumas aplicações, criando o próprio mercado. Tecnologias, em essência, são meta-mercados, exatamente porque podem endereçar mercados existentes ou podem induzir novos mercados. Tecnologias transformam mercados estáticos em mercados "entrópicos".

Insisto que não estou discutindo o conceito de inovação. Estou tratando de suas origens. Claro que há necessidade de mudança de comportamente dos agentes, como fornecedores e consumidores, mas em alguns casos, esta mudança é induzida por "empurrometria da teconologia". Nem 8, nem 80. Ainda que o "puxão" do mercado induza inovação, o "empurrão" da tecnologia também induz a inovação, às vezes criando o próprio mercado.

(nós de TIC "empurramos pela goela da sociedade" nossas tecnologias mais que qualquer outra industria no sentido econômico)
Abraço